Na verdade não sou de me incomodar com as coisas. Violência, corrupção, barbárie, nova musa do funk, alta das taxas de juros... Entretanto estes dias me peguei incomodada com o estado atual das coisas. Me senti sufocada, sem saber para onde correr, e com a sensação de que não há para onde correr. Se o cotidiano esmaga qualquer espírito criativo, qualquer vontade de fazer algo diferente, é exatamente dentro da cabeça que temos a maior liberdade de criar, de pensar coisas absurdas e hediondas, ter pelo menos a posse da idéia de que lá é onde mora a verdadeira liberdade. Não, não é assim. Eu vejo uma multidão de pessoas sonâmbulas, anestesiadas. Qualquer zumbi ou vampiro tem mais vontade de viver do que as pessoas que eu avisto nas ruas. Todas andando de um lado para outro como se não tivessem vida; seus carros, seus celulares têm mais viço que elas. Isso se reflete na cultura: nada de novo, e muito menos de bom é criado, nada, nenhuma escola literária, filosófica, artística, nenhuma proposta política interessante. Tudo que surge é de uma qualidade lastimável, o que só piora tudo. Não dá nem para chamar de tédio, pois no tédio pode-se contemplar uma bela vida mental. Adoraria pensar que esta paralisia cultural e intelectual é transitória, como se este século fosse de uma "idade média" cultural, mas infelizmente as coisas têm que piorar muito ainda, antes de melhorar. Eu espero.