"alunos brigam, depredam escola e apanham da PM"
Esta notícia me fez lembrar porque sempre rejeitei prontamente a idéia de ser professora. Afinal, com diproma de cientista social, não me sobram muitas opções, e dar aulas é uma das mais aceitas pelos dipromados. Para adiar minha saída da faculdade, e consequentemente adiar a decisão do que fazer da vida, optei pelo curso de licenciatura, afinal, era de graça e ainda podia usufruir da carteira de estudante por mais dois anos. Precisei cumprir algumas intermináveis e dolorosas horas de estágio em escolas. Fui a uma escola pública perto de casa, e como a professora de sociologia daquela escola mais faltava do que comparecia às aulas, tive que assistir as aulas de outros professores, senão, acho que ainda não teria cumprido as horas/aula. Ao conversar com os professores, eles foram unânimes em desaconselhar a docência, diziam para eu desistir da idéia de dar aulas, pois não valia a pena, os alunos eram mal educados, não estavam interessados em aprender e eu que fosse procurar outra coisa que a escola não era lugar. De certa forma, esta visão dos professores e a tentativa de dissuadir qualquer aspirante à carreira contribuiu para redigir a proposta de curso que precisava fazer no final da licenciatura. Enquanto meus colegas falavam em ensinar sociologia clássica, como se aqueles analfabetos funcionais do ensino médio pudessem entender Weber, escrevi um dos trabalhos mais sinceros que fiz na faculdade. Minha proposta de curso era tentar ensinar aos alunos um pouco do panorama sócio-econômico, falar de desemprego, setor de serviços, mercado de trabalho. Uma proposta cínica e sincera de mostrar aos alunos que ao sair do ensino médio eles iam se deparar com o desemprego decorrente da sua má-formação educacional. Lembro que o professor pareceu surpreso, talvez não era o tipo de trabalho que ele estava acostumado a ouvir, no fim do curso ele me deu oito, aí quem ficou surpresa fui eu. Sei que seria uma péssima professora, desinteressada, que não perderia uma oportunidade para faltar, não me preocuparia se os alunos estariam aprendendo, iria subestimar a inteligência deles. As escolas estão muito ruins, e acho que a culpa é de todo mundo, do governo que não investe como deveria, dos professores mal formados e mal pagos, dos pais dos alunos que não se interessam pela qualidade das escolas, e acham que é função da escola educar seus filhos, dos próprios alunos que não se dispõem a fazer algo por eles mesmos. Pelo que sei, a situação das escolas particulares não é muito melhor, pois a má formação dos professores é praticamente a mesma, os alunos são irritantemente mal educados, pois tratam os professores como empregados (e tratam a empregada doméstica como escrava), os pais não aceitam que a escola forneça autoridade, pois eles mesmos não o fazem. Daí percebe-se o progressivo baixo nível das universidades públicas e das particulares renomadas. Falam que o Brasil já começa a sofrer com escassez de mão-de-obra qualificada... tudo tem um começo...


