quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

insanidade auto-induzida?

Existem momentos em que é difícil precisar a fronteira da insanidade, nunca se sabe se esta já foi transposta, por quantas vezes, ou se já foi para o "lado de lá". Meu mais recente sintoma de insanidade acontece com mais freqüência que eu gostaria, certamente. Pois durante um segundo, ou até menos que isso, ao estar na convivência de pessoas muito próximas eu sinto nitidamente que não conheço tal pessoa. Não é aquele estranhamento do inconsciente, a certeza de que a outra pessoa é um mistério, e de que podemos viver 130 anos que jamais vamos nos conhecer inteiramente. Não, é algo muito mais raso e imediato. É não reconhecer a fisionomia da pessoa, como se fosse a primeira vez que estivesse vendo, ou como se fosse aquela mulher que sentou do meu lado no ônibus em 2004. Aí eu olho e penso, quem é você? O que estou fazendo conversando com você? Tudo acontece num lampejo, e fico um tempo a mais meio desnorteada. Às vezes fico com medo disso acontecer com tanta freqüência até não reconhecer mais as pessoas. Ao mesmo tempo sempre achei que uma vida sem memória é muito mais fácil e cômoda, pode-se cometer os mesmos erros sem se preocupar em acertar jamais, e sem se cobrar por todos os erros já cometidos. Como já disseram, o segredo de uma vida bem vivida é ter uma péssima memória, mas no meu caso, nem tanto...

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

devil's haircut

É tão bom quando os próprios dilemas se resumem a coisas cotidianas. O meu atual é a dúvida de cortar ou não o cabelo. Não se trata de tirar "dois dedos" do comprimento. É tosquiar tudo mesmo. Já não está muito comprido, apenas logo abaixo do ombro, mas a vontade é de fazer um corte beeem curtinho, como sempre usei. Faz uns dez anos que não deixo o cabelo crescer muito, queria experimentar de novo isso, mas esbarro na falta de paciência. Na verdade nem sei como cuidar de uma longa cabeleira, se pente é melhor que escova para desembaraçar, ainda me perco na quantidade de condicionador... o tempo no chuveiro, e a freqüência na compra de shampoo aumentam junto com o comprimento dos fios. Sem contar que em breve chegará o verão, apesar do clima ameno das últimas semanas... Claro que já me conheço, e em algum momento - em breve - vou cortar tudo, até mais curto que plenejava. O importante é o passatempo que essas dúvidas inúteis proporciona.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

danone das criança

Eu poderia passar as próximas décadas da minha vida estudando sociologia (posso, mas não vou, nem devo), e uma coisa que com certeza não entenderia é a fixação por iogurte que a pobretada tem. Não é só "iogurte", é danone! Sempre que tem uma fubanga pobre lastimando a própria miséria, ela dramatiza: É muito triste não ter dinhero pra compra danone pro seus filho, ver as criança pedindo um danone e você não pode comprar. Não é só danone, o mesmo discurso vale para bolacha recheada. Penso que no imaginário da pobretada, o paraíso terrestre teria um poço cheio de danoninho, cachoeira de yakult, as bolachas recheadas seriam apanhadas nas árvores, salgadinhos cairiam como chuva. Eles também devem achar que nas casas de famílias abastadas, as criança tem tudo uma geladeira cheia de danone, exclusiva. Parece que essas guloseimas são indicadores sociais. Já faz um tempo que a Danoninho vende de par, custava menos de um real. Também pode-se comprar bolachas por menos um real. Acho que distribuição de renda não quer dizer saneamento básico, baixo índice de natalidade, escolaridade e outras coisas. Um pobre realmente saiu da linha da pobreza quando pode comprar danone pras criança sem comprometer o orçamento!
(Bom, se os bacuris só comessem essas coisas dentro de casa, vá lá, mas tem sempre um que resolve abrir um pacote de Cheetos no ônibus, bem atrás do seu banco, e você está em jejum, meio enjoada e em dúvida se vai conseguir almoçar, com a única vontade pegar aquele pacote de salgadinho Fofura e jogar pela janela. Precisava desabafar.)

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

constatação

Se eu escrevesse bem, provavelmente seria roterista de algum sitcom, daqueles que você termina de ver o episódio e tenta se lembrar de assistir na próxima semana. Certamente não seria daqueles escritos pela Fernanda Young, que consegue ser mais interessante como entrevistadora do que como escritora, o que é um feito muito grande, vide aqueles textos recheados de piadas com menções a flatulência. Se eu escrevesse bem, teria livros de culinária escritos com quase tanta graciosidade que a MFK Fisher. Se eu escrevesse bem, seguiria uma vida acadêmica com trabalhos escritos cheios de elegância e opulência intelectual. Mas eu não escrevo bem, reconheço isso tão fortemente que mantenho um blog, a meca dos frustrados, revoltados, empolgados sem motivo aparente, e daqueles que pensam ter um talento literário que ninguém viu. É grande a coragem de publicar escritos e ainda pedir para os outros lerem e comentarem, notável a falta de senso de ridículo em expor sua vida e seus pensamentos mais insignificantes sobre qualquer tema, porque no mais das vezes (não sei porque gosto de "no mais das vezes") ninguém teve paciência ou coragem mesmo em escutar aquela opinião hedionda sobre um assunto relevante, ou porque faltou dinheiro para a terapia para contar como foi traumática aquela ida à padaria, pois o croissant havia acabado. Se o blog serve para alguma coisa, é um termômetro que mede o nosso tempo, de solidão, arrogância, falta de criatividade, a perfeita junção do atomismo com o narcisimo, e ainda tem o fotolog para deixar tudo mais bizarro.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

conhecimento inútil

Pela primeira vez em meus anos como leitora estou lendo quatro livros simultaneamente. Sempre gostei de ler um livro de cada vez, assim como sempre gostei de comer separadamente todos os alimentos que reunia no prato. Mas com a mudança de personalidade (ou afirmação desta), os hábitos mudam junto, o que era impensável anos atrás, agora é um hábito quase antigo, como xixi antes de deitar. E voltando aos livros, acredito que já li o suficiente para adquirir uma certa maturidade como leitora, o que me deixa seletiva porque agora conheço meu gosto, meus interesses e já não saio lendo o que cai no colo, e sim procuro o que quero. Penso que estes livros formam parte de um todo, seus temas são interligados, e lê-los conjuntamente aumenta a perspectiva de entendimento do tema. Os títulos são Costumes em Comum, do E.P. Thompson, sobre a cultura popular na Inglaterra do século XVIII, Processo Civilizador, do Norbert Elias, que faz uma historiografia dos costumes da Europa medieval até a era moderna, História da Alimentação, que é uma compilação de ensaios de vários historiadores, antropólogos (a maioria italianos), e Como Cozinhar um Lobo, da MFK Fisher, praticamente um livro de memórias sobre como cozinhar com parcimônia e inteligência em tempos de escassez, escrito em 1942. Direta e indiretamente todos tratam do tema da alimentação, do comportamento na copa e na cozinha, é como uma lupa sobre o microcosmo de cada casa ao longo dos séculos, pois não é só na esfera pública que a sociedade caminha e se transforma, acredito que são as mudanças na mentalidade e nos costumes que fazem a política ou a economia mudarem. Mas infelizmente o marxismo é o dogma oficial e obrigatório das universidades tupiniquins, quase não sobra espaço para essa abordagem, o que também explica em partes a pouca importância que essas mesmas universidades têm.