quarta-feira, 26 de março de 2008

1000 dias

Numa manhã preguiçosa (como quase todas as outras), olho o calendário e percebo: 2 anos e 9 meses de namoro (depois do primeiro ano, perdeu o sentido as lembranças mensais, se tornaria um tanto burocrático). Meço este o tempo em meses, depois em dias... 1000 dias. Um número bonito, redondo, próprio das promoções de supermercado, parabéns, você é nosso milésimo cliente!! Ou o número de gols do Pelé, que dedicou às criancinhas carentes, entende? Nem que eu estivesse esperando pelo milésimo dia, com certeza teria perdido, ou esquecido... Apenas foi curiosa a conta, a coincidência. Por timidez, reserva, misantropia e antipatia sou avessa a declarações públicas de amor, mas me permito dizer que com certeza esses foram os melhores mil dias da minha existência, e seria breguice demais dizer que viveria mais mil anos assim?

quarta-feira, 19 de março de 2008

wedding day

Acho casamento uma coisa muito kitsch! Nada contra a instituição matrimonial, abaixo o evento-casamento. Como disse minha sábia amiga, é como viver um dia na Idade Média. Noiva com vestido medieval, branco (no medievo a moda era vermelho, mas aí uma certa rainha da Inglaterra usou branco e foi tendência), e não incomum com uma pronunciada gravidez de 6 meses. Véu, grinalda, bouquet, muita informação, aquela maquiagem já oleosa. Música de algum filme da Disney para a entrada da noiva. Nessa hora eu gosto de olhar a decoração da própria igreja, aquelas pinturas bonitas, cenas do calvário, figuras de um homem ensangüentado, torturado... e a noiva entrando, a tia velha chorando. Pausa para a cerimônia, senta, levanta, senta... vontade de entrar em coma! A cerimônia acaba, aquele semi-tumulto na porta da igreja, parece porta do metrô estação Sé. Começa quase a Corrida Maluca para chegar ao local da recepção, todo mundo quer entrar primeiro, sentar logo e comer, beber, beber. Todos os convidados acomodados, já com copos na mão, os noivos entram, a noiva está mais oleosa que nunca, cadê o pó? Comida e bebida invariavelmente de qualidade duvidosa são servidas, e a música tocando... às vezes Kenny G, ou pagode, ou Ana Carolina... já Roupa Nova fica para quando a festa atingir níveis etílicos adequados para as tias velhas se soltarem na pista de dança, que geralmente é providenciada arrastando as mesas. Antes ou depois das tias velhas alcoolizadas chega o momento de maior constrangimento para mim, aquele de passar a sacolinha, ou a gravata do noivo, e mais ralé ainda o sapato da noiva. Momento de faturar uns trocados, que já virou orçamento previsto da festa. Para casórios de noiva embuchada, considero o mais adequado um pacote de preservativos, pois planejamento familiar antes tarde do que nunca, ao invés de dinheiro que sabe lá como será gasto! Felizmente eu nunca vejo uma festa de casamento deste ponto em diante, não vejo a valsa dos noivos, o corte do bolo, a qualidade dos docinhos, a distribuição de bens-casados e outros vexames alcóolicos. Tenho a felicidade de sair da festa até antes dos noivos (que devem ir contar o dinheiro arrecadado). Tá certo, tudo é uma questão de satisfação pessoal, realização de um sonho e blábláblá, tudo bem querer ser tradicional, mas custa muito freiar impulsos cafonas nesse momento?
*Meu sonho de casamento perfeito não contém nenhuma cerimônia religiosa, afinal, seria meio estranho, já que não pratico nenhuma delas, também não tem festa, pra que alimentar pessoas que sairão falando mal, como esta que escreve? Adorei a idéia, que ouvi há poucos dias, e foi crescendo na minha cabeça, de realizar um casamento no cartório, sem uma data pré-marcada, com testemunhas arranjadas ali na hora... tão bom comunicar às pessoas a mudança de estado civil conjugando o verbo no passado, "eu me casei ontem/há 3 dias/semana passada... eu sei, você não foi, é porque não precisava". Luxo.

quinta-feira, 13 de março de 2008

comidas imortais

"Quanto a mim, sempre disse (e pratiquei!) que jamais daria a um cão ou gato aquilo que eu mesma não comeria. Às vezes, tem sido difícil jogar fora uma lata inteira de alguma comida nova recomendada que, quando abro, exala um tal cheiro de carne velha e temperos espúrios que eu jamais poderia engolir uma pequena amostra daquilo.
Em compensação, pode-se dizer com bastante segurança que aquilo que Butch ou Amora não tocarem não serve como alimento a você. Por exemplo, carne enlatada que se parece com comida para cachorro, exceto que é mais cara: se nenhum dos dois animais gostar dela, pode ter certeza de que está salgada demais ou impossivelmente rosada e sã com uma massa de conservantes que irá ressecar sua língua e queimar suas entranhas.
Certa vez, comprei impulsivamente uma generosa lata de salmão defumado fatiado da Polônia, Fiz um belo prato de hors-d'oeuvre com ela e depois, sentindo-me magnânima, pus uma fatia no prato de Bazeine, o Amora de então.
Ele cheirou o prato, recuou como se tivesse recebido um tapa e com um olhar desaprovador para mim desapareceu por dois dias. O mesmo que quase aconteceu com os seres humanos um pouco depois, uma vez que não consegui jogar fora quinze francos e servi o salmão, apesar da sugestão clara de Bazeine.
Na manhã seguinte, fiz uma pilha com todas as belas e finas fatias cor de laranja e levei-as pesarosamente para o buraco de adubo, depois do parreiral. Ainda estavam com aparência vistosa e deleitável, depositadas sobre todos os restos de verduras e flores mortas.
Meses depois, quando estava limpando as folhas de um magnífico melão que crescera de uma semente jogada no buraco e o cobrira durante todo o verão, vi o salmão defumado novamente.
Lá estava, exatamente onde eu o colocara, em cima de toda a vegetação morta. O sol não apagara sua cor brilhante, e neve, vento e chuva não tinham entortado suas oleosas formas retas. Os pássaros o tinham ignorado, ou fugido com medo, talvez, e até as sábias formigas o tinham deixado inviolado.
Por fim, o buraco foi coberto com terra e logo flores silvestres luxuriantes cresceram ali. Mas às vezes tenho a sensação de que, se voltar alguma vez àquele campo abaixo do parreiral, na Suíça, o estranho e assustador quadrado de salmão laranja-claro terá aberto caminho através da terra e das raízes, e lá estará à mostra, um escárnio imortal ao meu esnobismo gastronômico e ao momento em que me recusei a aceitar a advertência de um gato. "
MFK Fisher - Como cozinhar um lobo.

* A história desta lata de salmão me fez lembrar o Museu do Hamburger.

terça-feira, 11 de março de 2008

joga fora no lixo

Tem momentos que nenhum palavrão do mundo, e nem todos eles juntos são capazes de traduzir ou extravasar a raiva do desrespeito que outra pessoa causa. O motivo: sumiram com a merda do meu saco de farinha integral que uso justamente para cagar! O que faz um saco de farinha desaparecer? Consumo? Certamente não. Mas sim a cegueira de uma pessoa que joga no lixo tudo o que vê, sem se preocupar com o que é, se pertence aos outros... pessoa esta que é minha mãe. A questão não é só a farinha, ou uma calça, algumas blusas, muitos papéis e tantos outros objetos perdidos ao longo dos anos, e sim a recorrência do comportamento e o desprezo pela privacidade alheia, o pensamento que comanda é: por que guardar algo que não é meu e nem me faz falta? Manda pro lixo. Acredito que ela é capaz de - literalmente - jogar dinheiro fora, se aqueles papéis meio sujos estiverem ocupando espaço por muito tempo.

quinta-feira, 6 de março de 2008

tempo de mulher só nas lojas marisa

Pensei em escrever algo sobre a "mulher moderna", mas esta tem uma vida bem chata e desinteressante, só sabe reclamar do peso e da jornada dupla/tripla, da falta de tempo, de como os homens não prestam, em como os filhos dão trabalho, e acham que fingir orgasmo ainda funciona. Então, numa das minhas leituras, achei algo mais interessante. O livro, Costumes em Comum. O autor, E.P. Thompson. O capítulo sete trata sobre a venda de esposas (o livro se dedica ao estudo da cultura popular na Inglaterra dos séculos XVII - XIX). No séculos XVIII e XIX os relatos de venda de esposas são mais abundantes, entretanto de difícil interpretação. Acontecia nas camadas populares, e tinha uma dimensão ritualística bem definida: a mulher era levada ao mercado do vilarejo mais próximo, com uma corda frouxamente amarrada ao seu pescoço ou cintura, o marido encenava um leilão pela esposa e sempre havia um comprador, era tudo previamente arranjado. A quantia pela venda era irrisória, e comumente gasta em cerveja na taverna mais próxima, onde as três partes iam finalizar a venda com recibo. Essa parte do ritual, com a corda, no mercado, simulando a venda de gados era proposital, para dar um caráter público à troca. À primeira vista parece extremamente degradante à mulher ser vendida no mercado, porém, com a análise dos casos que é possível fazer, percebe-se que a venda é a solução encontrada para realizar um divórcio público. Comumente ela consentia a venda e desejava viver com seu "novo" marido, que muitas vezes era um antigo amante, e há muito não vivia com o marido, e precisava formalizar a mudança de cônjuge. Nos relatos da época, essa mulher vendida não era vista como uma vítima absoluta e impotente, ou como uma mercadoria, por mais grotesco e brutal que fosse o ritual, e mais como uma parte tão ativa e decidida do negócio empreendido quanto o vendedor e o comprador. *Claro que há histórias para todos os gostos (destas mulheres e da História), em todas as "minorias oprimidas" temos a descrição academicista de que foram vítimas absolutas de seus algozes (WASP, invariavelmente) e que nunca conseguiam criar suas próprias estratégias, meios culturais, leis internas, de sobrevivência. Claro que quase nunca essa é a história escrita, a outra visão, maniqueísta é a mais consumida, porque se aproxima mais dos contos de fadas (ou porque é a mais cômoda para servir de propaganda para atacar o sistema). Talvez essas esposas vendidas no mercado público tinham mais entendimento do seu mundo, e mais capacidade de ação do que as mulheres atuais, que vão perpetuar dias dedicados a elas, afirmando assim, sempre sua situação de gênero subordinado, em detrimento das capacidades e incompetências individuais.

segunda-feira, 3 de março de 2008

7 por 1 real

Eu tenho medo daquelas paçocas vendidas no centro, 7 por um real. Já me disseram que é segura. Sou usuária de Paçoquita há um bom tempo, mas este preço me espanta e me fascina, simultaneamente. Penso se é mercadoria roubada, manchete do SP TV, um carregamento de paçocas foi roubado esta madrugada, a polícia não tem pistas dos ladrões. Quase paro para comprar, e encher a bolsa de paçocas, me vê 5 real em paçoca, moço! Mas o instinto de auto-preservação me persegue: não tenho vocação para viver perigosamente. É melhor seguir a vida com pequenas doses de paçoca (que poderá virar nome de gato, caso adote um amarelinho).